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Suicídio assistido vem ganhando força no Canadá

[REBECCA GUIMARAES] Viver bem ou viver mais? Essa é uma das perguntas fundamentais quando o assunto é o suicídio assistido. Essa prática é ilegal no Canadá, mas a opinião pública está mudando. A geração pós-guerra está envelhecendo, impulsionando o debate sobre o assunto e protagonizando histórias como as de Bill.

Bill Kennett foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica em 31 de maio de 2007. Quando se trata dessa doença, família e paciente devem se preparar para a morte desde o momento do diagnóstico. Valerie Kennett, esposa de Bill, conta que o casal abordou a situação de duas formas: todos vão morrer e todos têm escolhas a fazer.

Em fevereiro de 2008, por volta da metade de sua doença, Bill escreveu o seguinte:

“Sou um homem de 75 anos, canadense, nascido em Toronto em 4 de setembro de 1932. Vivi uma vida excepcionalmente saudável, feliz e ativa. Sou casado, tenho dois filhos e dois netos. Minha esposa e eu acabamos de comemorar 50 anos de casados. Aproveitamos muito nossa vida juntos.

Fui diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica em 31 de maio de 2007. Trata-se de uma doença terminal degenerativa. Sabia que logo perderia a capacidade de fazer as coisas por conta própria e não conseguiria mais falar, engolir e, por fim, respirar.

Vi o filho de amigos meus morrer de esclerose lateral amiotrófica e sei exatamente o que isso implica.

Resolvi que não quero ver essa doença progredir até o final. Não quero chegar ao tipo de qualidade de vida que o final da doença proporciona e não quero morrer sem dignidade.”

Bill não demorou a fazer sua escolha. Valerie teve de respeitar e aceitar a decisão de seu marido, apoia-lo e aprender a deixa-lo partir. Quando o dia chegou, Bill e sua família assistiram a um vídeo da história de suas vidas. Estavam presentes também dois membros da organização Dying with Dignity (Morrendo com Dignidade, em tradução livre).

Bill descobriu a organização Dying With Dignity pela Internet. Valerie conta que eles deram todo o apoio, informação e conselhos necessários para o casal. Decidir “quando, como e onde” foi um processo cuidadoso e cheio de possibilidades. Bill queria morrer em casa e teve sua preferência atendida. Ele se foi de forma pacífica, tranquila e rápida, em casa, e com a presença de sua família.

A história de Bill é apenas uma. Outras pessoas em estado terminal também optaram pelo suicídio.

Uma pesquisa realizada em uma casa de repouso indicou que 80% dos idosos quer ter a chance de morrer por injeção letal quando achar que é chegada a hora. Uma das senhoras entrevistadas acredita que manter alguém vivo quando não há mais alegria seria como uma tortura. Porém, as opiniões variam. Outros acham o suicídio assistido uma opção egocêntrica e egoísta, digna de quem não liga para as pessoas ao seu redor.

A diretora de um dos centros de cuidados paliativos do Canadá acredita que as pessoas precisam de cuidados e compaixão, e não de injeção letal. Porém, menos de 30% dos canadenses têm acesso a esse tipo de centro de cuidados.

A questão do suicídio assistido avançou muito no mundo todo, mas demorou a avançar no Canadá. Somente em 2013 o governo do Quebec anunciou um plano para passar a Lei 52. Essa lei permite que pessoas com doenças terminais e sofrimento insuportável busquem o suicídio assistido. Ela foi aprovada com 94 votos contra 22, sem abstenções, e deve entrar em vigor no final de 2015.

Apesar da aprovação massiva, ainda há muita oposição à Lei 52. Alex Schadenberg, diretor-executivo da coalizão de prevenção à eutanásia, acredita que “O Quebec não tem jurisdição para fazer o que está fazendo. Isso é uma tentativa de legalizar a eutanásia como um tratamento médico, mas é na verdade um atentado ao Estado de Direito”.

O ex-ministro da justiça canadense, Rob Nicholson, também já apresentou suas razões para ser contra o projeto. “As leis contra a eutanásia e contra o suicídio assistido existem para proteger o povo do Canadá. Inclusive a parcela da população mais vulnerável, que são os doentes”.

O assunto também ganhou projeção popular. De acordo com uma pesquisa recente, 84% dos canadenses são a favor do suicídio assistido. Para eles, um médico deve poder ajudar alguém a morrer se a pessoa for adulta, tiver doença terminal, estiver sofrendo de forma insuportável e pedir ajuda para morrer repetidamente.

No Canadá, ajudar alguém a cometer suicídio é crime, com pena máxima de 14 anos de prisão. Muitos canadenses já foram processados por ajudarem pacientes ou entes queridos a morrer. Porém, o país permite o coma induzido seguido do desligamento dos aparelhos de manutenção da vida para os pacientes que estão perto de morrer. Essa prática é conhecida como sedação paliativa, e os defensores do direito de morrer argumentam ser ética, moral e legalmente igual ao suicídio assistido ou à eutanásia.

A questão do suicídio assistido é bastante polêmica. Argumentos e opiniões continuarão a surgir de ambos os lados até que se chegue a uma decisão final, e mesmo depois. Veja abaixo o vídeo com a história completa de Bill Kennett.

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3 Comentários

3 Comments

  1. BBE

    16/dez/2014 at 10:47

    Me deixa muito triste ver como um pais tan lindo como e o Canada esteja recebendo algo tam triste como encouragamento a morte.. Cuidado para nos que estamos morando la.. para nao participar das coisas ruims.. parece que a sociedade esta regredindo, em lar poderiam dar assistencia para vida.. para salvar almas.. respeito a querer morrer, nao e respeito pela vida..

    • Gabriel Tosi Ribeiro

      16/dez/2014 at 11:17

      Não sei se a definição correta seja “encorajamento a morte”, tampouco seja uma coisa ruim de fato ou regressão.

      Analise o caso que foi apresentado, do cidadão Bill, deixe expandir aos demais casos de pessoas diagnosticadas com doença terminal degenerativa e pense bem se o suicido assistido não é, no fim das contas, um coisa boa.

      Em pouco tempo, uma doença terminal vai deixar o paciente em condições análogas a de tortura, a pessoa já deixará de viver de verdade e estará muito mais sofrendo ou sobrevivendo do que respeitando a vida.

      Neste caso, como muito bem apresentado, se trata de um Sr. de 75 anos, com filhos, netos, casado há 50 anos e que optou por morrer com dignidade e não se permitir ficar num estado vegetativo, dando trabalho a pessoas queridas, fazendo sua família sofrer tanto quanto ele numa cama de hospital ou de seu próprio lar.

      Enfim, cada caso é um caso, mas muitos se assemelham ao do Sr. Bill e acredito que nesse momento escolhas como a dele devem ser respeitadas e permitidas, afinal, “My life, my choice at the end of my life”.

    • Thiago

      18/dez/2014 at 02:40

      A sua opinião é tão quase tão tosca quanto o seu português. Não queira impor a todos a sua visão do mundo. Que cada um cuide da sua vida, no sentido literal da palavra.

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