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Cultura

De frente para o espelho

Gostar de hóquei e usar a interjeição “eh” no fim das frases são sem dúvida duas fortes pistas para identificar alguém que nasceu no Canadá. Mas indo além dos estereótipos, o que de fato significa “ser canadense”? O OiCanadá tenta responder a essa difícil pergunta.

Michelle, 30 de agosto de 1982, Ridgeway, ON.

Quando me concedeu esta entrevista, a estudante Michelle Bukator estava de malas prontas e com um sorriso no rosto: “I’m going home”. Era véspera do 1o de julho, feriado nacional conhecido como Dia do Canadá. A data faz referência ao 1o de julho de 1867, quando o país se tornou  independente do Reino Unido a partir da criação do Ato Constitucional de 1867, que corresponde à maior parte da Constituição canadense.

Logo na primeira pergunta, ela hesitou:

– Michelle, o que é ser canadense? E ela: – “Oh, that’s really hard to answer”.

De fato, ela é boa de conversa, mas reconheço que comecei pela pergunta mais difícil. Mas apenas isso não explica a dificuldade que ela teve de encontrar uma definição exata para tal questionamento. O historiador e cientista político Tiago Maranhão complementa: “Se nós formos às origens da palavra, ‘identidade’ significa basicamente a consciência que uma pessoa tem de si. No entanto, do ponto de vista histórico dos diferentes povos e nações, esse conceito é relativamente recente e todas as tentativas de definições objetivas têm falhado. Para não incorrer no mesmo erro, eu vou recorrer ao grande historiador Eric Hobsbawm quando ele diz que se observar nações fosse como observar pássaros, seria simples’. Mas acho que posso dizer, sem medo, que o conceito de ‘identidade’ é construído usando como critério algumas determinações internas da nação, povo, ou grupo, que são percebidas por sua referência ao que lhe é externo. Ou seja, a identidade não pode ser construída sem a diferença, sem a alteridade”.

Pois bem. Usando esse raciocínio, Michelle encontra em mim a “diferença” de que precisa para chegar mais perto de sua auto-definição. Como disse antes, ela estava de malas prontas rumo à cidade de Ridgeway (a uma hora e meia de Toronto), onde nasceu, programa que como costuma fazer todos os anos no 1o de julho. “É um grande dia para mim e para todos os canadenses. Sempre vou visitar meus parentes e passamos o dia no quintal fazendo churrasco, vamos nadar e saímos nas ruas com bandeiras do Canadá. É um dia pra relaxar e curtir com a família.” E complementou: “O Dia do Canadá diz muito sobre quem somos. Por mais que seja uma grande festa, a nossa maneira de celebrar é bem diferente da dos brasileiros, por exemplo. – (e aqui entra a alteridade proposta por Tiago Maranhão) – Sei que vocês adoram festejar com muita música e dança, o que é tipico da cultura brasileira, enquanto nós celebramos muito, soltamos fogos e fazemos programas ao ar livre, mas nada que se pareça com o que se vê nas grandes festas públicas no Brasil”.

Gloria, 08 de janeiro de 1924, Oshawa, ON.

Foi no apartamento onde mora há quase três décadas, no centro de Toronto, que Gloria LeGrow me recebeu para esta entrevista. Depois de uma breve apresentação e sem muitas delongas, fui direto ao assunto:

– Gloria, a senhora poderia me explicar o que é ser canadense? Uma pausa. E em seguida: – “Eu nunca parei pra pensar sobre isso… não sei, eu nasci aqui e simplesmente não gostaria de ser nada além de canadense”. A resposta curta veio acompanhada de um largo sorriso.

De fato, ela é uma mulher de poucas palavras. Mas apenas isso não explica a dificuldade que ela teve de encontrar uma definição exata para tal questionamento. Com a palavra, Tiago Maranhão: “Mais uma vez, dar uma resposta objetiva talvez seja um grande atrevimento. A ‘consciência  nacional’ se desenvolve de modo desigual entre os grupos sociais e as regiões de um país. Um habitante de Calgary provavelmente tem uma visão sobre o Canadá diferente de outro habitante que vive em Montreal. A gente pode entender ‘os canadenses’ como um povo que partilha um vasto sitema cultural. Compartilhar símbolos, ritos, mitos, ideologias, língua e etc. faz parte daquilo que Benedict Anderson chama de ‘comunidade imaginada’. O Hockey é um excelente exemplo de como o canadense se imagina a si mesmo. Eu prefiro pensar que o que faz de um canadense, canadense, é a imagem criada há muito tempo por um keiser alemão usando três palavrinhas: ‘nós’, ‘aqui’, ‘juntos’.

Uma terra de imigrantes

Em se tratando de Canadá, a expressão “nós aqui juntos” engloba necessariamente diversas nacionalidades. Por ainda ser um dos poucos países que atualmente mantêm uma política de atração de imigrantes, gente de várias partes do planeta escolhe este país para viver. Gloria testemunhou o crescimento da população e tem algumas queixas: “Eu acho que as pessoas que vêm para cá deveriam deixar seus problemas nos seus países de origem”, ataca. “É lamentável que em algumas áreas de Toronto, por exemplo, certas comunidades sequer falem inglês. Minha teoria é: se essas pessoas vieram para o Canadá é porque gostam daqui, certo? Então por que a gente é que tem que mudar?, questiona.

Já Michelle se acha extremamente sortuda de morar em um país com tamanha diversidade cultural. “É como ter a chance de conhecer vários países sem precisar sair de casa”, compara. E acrecenta: “Mas acho uma pena aqueles que se fecham em suas comunidades e se recusam a abraçar a cultura canadense, ainda mais considerando que nós somos tão receptivos às diversas culturas que aqui chegam. Se um chinês por exemplo, imigra para cá, ele deveria virar chinês + canadense, e não continuar apenas chinês”.

E aqui surgem algumas questões: até que ponto os imigrantes absorvem e modificam o “jeito de ser canadense”? Diante de uma sociedade tão diversa, quem seriam os “verdadeiros canadenses”?

“Frases como ‘os verdadeiros canadenses’ são muito perigosas. É um passo para não aceitar a diversidade, determinando um grupo ou elemento como ‘o verdadeiro’. Assim podemos encontrar na história da humanidade ‘o superior’, ‘o dono do território’, ‘a verdadeira cultura’, entre outras temáticas e problemas. A tomada de consciência da diferença não é, em si mesma, perigosa. O perigo consiste em atribuir uma valoração hierárquica para aquilo que se diferencia. Portanto eu penso que o canadense de hoje é um cidadão que vive num estado multicultural e multiétnico extermamente rico em sua partilha de símbolos”, responde Tiago Maranhão.

Talking canadian

Assim como o Brasil, o Canadá é um país extenso e com vários sotaques espalhados pelo seu território. E não só o jeito de falar, como também algumas expressões que só se ouvem por aqui, viraram marcas do povo canadense. Aqui vão algumas delas:

  • double double coffee: um jeitinho canadense de pedir um café com dois sachês de leite e dois de açúcar.
  • triple triple coffee: mais frequente nas cidades do interior, significa um café com três sachês de leite e três de açúcar.
  • eggs sunny-side up: é o famoso ovo com a clara assadinha e a gema mole. “Se eu quiser esse tipo de ovo nos EUA, por exemplo, tenho que pedir eggs over easy, senão ninguém vai me entender”, garante Michelle.
  • eh: uma simpática interjeição que acompanha 90% das frases ditas pelos canadenses. Significa, na maioria das vezes, “não é mesmo?” Exemplo: What a sunny day, eh? (Que dia ensolarado, não é mesmo?).

Enfim, ser canadense é…

“Antes de tudo ter orgulho de ter nascido no Canadá. Acredito que somos um povo educado e amigável, que respeita os outros países e culturas.”

“Reclamar quando o inverno chega. Odiamos ter que limpar a neve das calçadas, ficar cobertos de roupas pesadas, mas ao mesmo tempo amamos tudo isso. Afinal, a neve faz parte de nós e não conhecemos outra maneira de viver senão essa.”

“Jogar hóquei. Acho até estranho um canadense que não faça isso”.

“Gostar de programas ao ar livre. Adoramos o contato com a natureza, acampar, fazer fogueiras. É muito comum, principalmente em cidades pequenas, ver famílias reunidas na garagem de casa em vez de estarem da sala de jantar, por exemplo. Até mesmo no inverno, com a ajuda de uma lareira, claro”.

(Michelle Bukator)

Já Gloria, a mulher de poucas palavras, do alto dos seus 86 anos, conclui: ser canadense é simplesmente “estar viva”.

De frente para o espelho

Gostar de hóquei e usar a interjeição “eh” no final das frase são sem dúvida duas fortes pistas para identificar alguém que nasceu no Canadá. Mas indo além dos estereótipos, o que de fato significa “ser canadense”? O OiCanadá escolheu a data mais patriótica do ano para tentar responder a essa difícil pergunta.

LEGENDA DA FOTO: Duas gerações: Gloria LeGrow e Michelle Bukator explicam o que diferencia os canadenses dos outros povos

DENTRO

Michelle, 30 de agosto de 1980, Ridgeway, ON.

Quando me concedeu esta entrevista, a estudante Michelle Bukator estava de malas prontas e com um sorriso no rosto: “I’m going home”. Era véspera do 1 de julho, feriado nacional conhecido como Dia do Canadá. A data faz referência ao 1 de julho de 1867, quando o país se tornou  independente do Reino Unido a partir da criação do Ato Constitucional de 1867, que corresponde à maior parte da Constituição canadense.

Logo na primeira pergunta, ela hesitou:

– Michelle, o que é ser canadense? E ela: – “Oh, that’s really hard to answer”.

De fato, ela é boa de conversa, mas reconheço que comecei pela pergunta mais difícil. Mas apenas isso não explica a dificuldade que ela teve de encontrar uma definição exata para tal questionamento. O historiador e cientista político Tiago Maranhão complementa: “Se nós formos às origens da palavra, ‘identidade’ significa basicamente a consciência que uma pessoa tem de si. No entanto, do ponto de vista histórico dos diferentes povos e nações, esse conceito é relativamente recente e todas as tentativas de definições objetivas têm falhado. Para não incorrer no mesmo erro, eu vou recorrer ao grande historiador Eric Hobsbawm quando ele diz que se observar nações fosse como observar pássaros, seria simples’. Mas acho que posso dizer, sem medo, que o conceito de ‘identidade’ é construído usando como critério algumas determinações internas da nação, povo, ou grupo, que são percebidas por sua referência ao que lhe é externo. Ou seja, a identidade não pode ser construída sem a diferença, sem a alteridade”.

Pois bem. Usando esse raciocínio, Michelle encontra em mim a “diferença” de que precisa para chegar mais perto de sua auto-definição. Como disse antes, ela estava de malas prontas rumo à cidade de Ridgeway (a uma hora e meia de Toronto), onde nasceu, programa que como costuma fazer todos os anos no 1 de julho. “É um grande dia para mim e para todos os canadenses. Sempre vou visitar meus parentes e passamos o dia no quintal fazendo churrasco, vamos nadar e saímos nas ruas com bandeiras do Canadá. É um dia pra relaxar e curtir com a família.” E complementou: “O Dia do Canadá diz muito sobre quem somos. Por mais que seja uma grande festa, a nossa maneira de celebrar é bem diferente da dos brasileiros, por exemplo. – (e aqui entra a alteridade proposta por Tiago Maranhão) – Sei que vocês adoram festejar com muita música e dança, o que é tipico da cultura brasileira, enquanto nós celebramos muito, soltamos fogos e fazemos programas ao ar livre, mas nada que se pareça com o que se vê nas grandes festas públicas no Brasil”.

Gloria, 08 de janeiro de 1924, Oshawa, ON.

Foi no apartamento onde mora há quase três décadas, no centro de Toronto, que Gloria me recebeu para esta entrevista. Depois de uma breve apresentação e sem muitas delongas, fui direto ao assunto:

– Gloria, você poderia me explicar o que é ser canadense? Uma pausa. E em seguida: – Eu nunca parei pra pensar sobre isso… não sei, eu nasci aqui e simplesmente não gostaria de ser nada além de canadense”. A resposta curta veio acompanhada de um largo sorriso.

De fato, ela é uma mulher de poucas palavras. Mas apenas isso não explica explica a dificuldade que ela teve de encontrar uma definição exata para tal questionamento. Com a palavra, Tiago Maranhão: “Mais uma vez, dar uma resposta objetiva talvez seja um grande atrevimento. A “consciência  nacional” se desenvolve de modo desigual entre os grupos sociais e as regiões de um país. Um habitante de Calgary provavelmente tem uma visão sobre o Canadá diferente de outro habitante que vive em Montreal. A gente pode entender “os canadenses” como um povo que partilha um vasto sitema cultural. Compartilhar símbolos, ritos, mitos, ideologias, língua e etc. faz parte daquilo que Benedict Anderson chama de “comunidade imaginada”. O Hockey é um excelente exemplo de como o canadense se imagina a si mesmo. Não se pode esquecer que historicamente esses sentimentos de pertencimento foram construídos essencialmente a partir do topo, mas também não pode ser compreendido se não for analisado igualmente a partir da base. Eu prefiro pensar que o que faz de um canadense, canadense, é a imagem criada há muito tempo por um keiser alemão usando três palavrinhas: “nós”, “aqui”, “juntos”.

Uma terra de imigrantes

Em se tratando de Canadá, a expressão “nós aqui juntos” engloba diversas nacionalidades. Por ainda ser um dos poucos países que atualmente mantêm uma política de atração de imigrantes, gente de várias partes do planeta que escolhe este país para viver. Gloria testemunhou o crescimento da população e tem algumas queixas: “Eu acho que as pessoas que vêm para cá deveriam deixar seus problemas nos seus países de origem”, ataca. “É lamentável que em algumas áreas de Toronto, por exemplo, certas comunidades sequer falem inglês. Minha teoria é: se essas pessoas vieram para o Canadá é porque gostam daqui, certo? Então por que a gente é que têm que mudar?, questiona.

Michelle se acha extremamente sortuda de morar em um país com tamanha diversidade cultural. “É como ter a chance de conhecer vários países sem precisar sair de casa”, compara. E acrecenta: “Mas acho uma pena aqueles que se fecham em suas comunidades e se recusam a abraçar a cultura canadense, ainda mais considerando que nós somos tão receptivos às diversas culturas que aqui chegam”.

E aqui surgem algumas questões: até que ponto os imigrantes absorvem e modificam o “jeito de ser canadense”? Diante de uma sociedade tão diversa, quem seriam os “verdadeiros canadenses”? “Frases como ‘os verdadeiros canadenses’ são muito perigosas. É um passo para não aceitar a diversidade, determinando um grupo ou elemento como ‘o verdadeiro’. Assim podemos encontrar na história da humanidade ‘o superior’, ‘o dono do território’, ‘a verdadeira cultura’, entre outras temáticas e problemas. A tomada de consciência da diferença não é, em si mesma, perigosa. O perigo consiste em atribuir uma valoração hierárquica para aquilo que se diferencia. Portanto eu penso que o canadense de hoje é um cidadão que vive num estado multicultural e multiétnico extermamente rico em sua partilha de símbolos”, responde Tiago Maranhão.


Talking canadian

Assim como o Brasil, o Canadá é um país extenso e com vários sotaques espalhados pelo seu território. E não só o jeito de falar, como também algumas expressões que só se ouvem por aqui, viraram marcas do povo canadense. Aqui vão algumas delas:

– double double coffee: um jeitinho canadense de pedir um café com dois sachês de leite e dois de açúcar.
– triple triple coffee: mais frequente nas cidades do interior, significa um café com três sachês de leite e três de açúcar.
– eggs sunny-side up: é o famoso ovo com a clara assadinha e a gema mole. “Se eu quiser esse tipo de ovo nos EUA, por exemplo, tenho que pedir eggs over easy, senão ninguém vai me entender”, garante Michelle.
– eh: uma simpática interjeição que acompanha 90% das frases ditas pelos canadenses. Significa, na maioria das vezes, “não é mesmo?”

Ser canadense é…

“Antes de tudo ter orgulho de ter nascido no Canadá. Acredito que somos um povo educado e amigável, que respeita os outros países e culturas.”

“Reclamar quando o inverno chega. Odiamos ter que limpar a neve das calçadas, se cobrir de roupas pesadas, mas ao mesmo tempo amamos tudo isso. Afinal, a neve faz parte de nós e não conhecemos outra maneira de viver senão essa.”

“Jogar hóquei. Acho até estranho um canadense que não faça isso”.

“Gostar de programas ao ar livre. Adoramos o contato com a natureza, acampar, fazer fogueiras. É muito comum, principalmente em cidades pequenas, ver famílias reunidas na garagem de casa em vez de estarem da sala de jantar, por exemplo. Até mesmo no inverno, com a ajuda de uma lareira, claro”.

(Michelle Bukator)

Já a mulher de poucas palavras, do alto dos seus 86 anos, conclui: ser canadense é simplesmente “estar viva”.

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Indo além dos estereótipos, o que de fato significa “ser canadense”? O OiCanadá escolheu a data mais patriótica do ano para tentar responder a essa difícil pergunta.

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Julieta é curiosa, subjetiva e prolixa. É também contraditória o suficiente para admirar o que é simples. Não perde a oportunidade de puxar uma boa prosa, seja na fila do supermercado ou durante uma viagem de avião. Antes de tudo, se interessa por pessoas e pela origem das coisas. Desde os sete anos, quando seu pai comprou uma câmera vídeo, sonha em ser jornalista. O sonho a levou à Universidade Federal de Pernambuco, onde a recifense se formou em Jornalismo. Das brincadeiras com a câmera do pai, veio a paixão pelas telas e pela linguagem audiovisual. Começou na TV Universitária de Pernambuco, passou pela TV Alepe, TV Asa Branca (Caruaru/PE), TV Cultura e TV Globo Nordeste. Em 2008 se mudou para o Canadá, onde juntou sua experiência em televisão com a liberdade da internet. No OiCanadá, Julieta faz o que mais gosta e melhor sabe fazer: contar histórias.

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