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Conheça John, o mendigo canadense fã de Shakespeare

Quase todos os dias, John faz o percurso de 40 minutos que separam a última estação de metrô da linha verde, Kipling, com a Yonge, localizada em pleno coração de Toronto. Mas não sem antes dobrar o saco de dormir simples que ganhou de uma amiga, organizar alguns poucos objetos que possui – entre eles obras primas de Shakespeare, seu autor favorito – procurar por um copo esquecido de café quente nas imediações da plataforma do metrô e, claro, batalhar por umas moedas, estendendo a mão para as milhares de pessoas que chegam logo cedo àquela estação para pegar o subway até o centro da cidade.

De moeda a moeda, ele consegue, geralmente por volta das 9h30 da manhã, os 6 dólares necessários para entrar a bordo do trem e voltar no fim do dia para aquilo que ele aprendeu já há alguns anos a chamar de casa. O motivo da pontualidade é um só. John é um apaixonado por livros e, ao contrário da maioria dos mendigos que vive perambulando em busca de álcool, drogas e dinheiro pelas ruas de Toronto, a maior cidade do Canadá, este senhor de 55 anos passa seus dias imerso na literatura, desfrutando do acervo da Toronto Public Library, entre as ruas Bloor e Yonge. E ele gosta de chegar cedo para pegar um lugar disponível no quarto andar da biblioteca.

Lê de Shakespeare à Thoreau. O primeiro porque afirma ser o último dos românticos e, o segundo, porque quer “entender as injustiças desse mundo” – como se sua própria realidade já não fosse um retrato fiel da injustiça capitalista. Entre as obras do inglês, John conta saber o beabá completo de Hamlet e Romeu e Julieta. “São minhas favoritas”. Já leu mais de 10 vezes cada uma. Diz que o gosto pelos livros é herança do pai, morto há alguns anos, vitima de um ataque cardíaco. O restante da família ele prefere não mencionar. John também entende de política, mundo, cultura e, sobre o Brasil, não poupa elogios: “É um lindo país. A terra do futuro”, afirma, com um sorriso triste no rosto, daqueles que só ostentam quem já sofreu muito na vida.

Mas o que pode ter acontecido para um senhor, aparentemente com uma boa educação, mal tratado pelo tempo, viver seus dias como morador de rua? “A vida é um caixa de surpresas, meu filho. Quando você acha que tem tudo, que está tudo bem, leva uma rasteira e perde sua base, se vê sozinho, sem amigos, filhos, família. Tudo se vai e aí, no fim do dia, é você com você mesmo”, contou ele em uma dessas tardes na biblioteca. “Meu pai, meu sábio pai, sempre me disse para nunca confiar nos homens. Esse foi meu erro. Confiar demais”, confessou.

John, porém, se recusa a contar toda a história por trás daquele sorriso triste e a responder as perguntas naturais que surgem dessa contradição, mas afirma, categoricamente, não ser nenhuma vítima. “Fazemos escolhas. Algumas certas, outras erradas, e cedo ou tarde, elas voltam para nos assombrar”, diz, sem largar as páginas do romance Macbeth, que tem lido nos últimos dias. “Shakespeare escreveu: lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente”, proseou.

O cheiro também é um problema. Anne Yun, de 21 anos, porém, conta estar acostumada. “Agora já não me incomodo mais. Ele até fala bom dia pra mim”, sorri a estudante de inglês, que veio da China para aprimorar as habilidades no idioma. Mas há quem torça o nariz. “Acho que devia ser proibida a entrada de mendigos na biblioteca. Não é nada agradável. Evito ir ao quarto andar para não sentir o cheiro”, diz outra estudante que preferiu não se identificar. Procurada, a direção da Toronto Public Library diz que a biblioteca está aberta a todos, independente de suas condições.

Entre mistérios sobre sua vida pessoal, a paixão pelos livros, e um passado de dramas e consequências drásticas, John parece querer levar muito pouco dessa vida, a qual ele considera “boa”, para quem, certamente, viveu altos e baixos ao longo dos anos. “Quando o homem parar de julgar apenas pelo que vê, e aprender a olhar com o coração, este será um mundo melhor”, filosofa ele, se despedindo, para não perder o metrô de volta até a Kipling Station.

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3 Comentários

3 Comments

  1. Vanessa

    08/set/2011 at 08:08

    Parabens pela reportagem. Figuras como John costumam ser esquecidas ou se tornam invisiveis. Esses sao os excluidos da historia.

  2. Lizandra

    29/ago/2011 at 06:15

    Gostaria de saber o sobrenome dele…

    • Elton

      29/ago/2011 at 20:04

      Lizandra,

      John eh nome ficticio.

      Abs

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