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Revitalização de velhos edifícios dá alma à cidade de Toronto

A transformação de antigos edifícios em espaços de convívio e centros de cultura e lazer são um um ótimo antídoto contra a mesmice das lojas de cadeia que dominam as ruas de Toronto.

Quando minha mãe veio do Brasil visitar-me aqui em Toronto, eu a levei a um shopping center em Mississauga. Eu moro em Scarborough, no extremo oposto da cidade, a mais de 50km de distância. No caminho de volta, fizemos parte do trajeto de ônibus e depois de uns 5 minutos ela disse: “Nossa, já estamos perto da tua casa tão rápido!” Eu respondi: “Não mãe, ainda está muito longe.” E ela: “Mas aquela loja é bem pertinho de onde você mora!” Era um Walmart.

Esta historinha para mim mostra bem o quanto a paisagem urbana na América do Norte, principalmente numa cidade jovem como Toronto, é monótona e repetitiva. Fora do centro, a situação fica mais grave. Não há muito o que diferencie um bairro do outro. São filas e filas de casas de tijolinho e uma infestação de plazas comerciais, praticamente idênticas, sempre com as mesmas lojas (como o Walmart) que podem ser muito práticas mas são sempre horrorosas e sem qualquer traço de personalidade. Em Mississauga ou Scarborough, é tudo igual. É por isso que quando alguém resolve construir algo diferente ou recuperar um prédio antigo e transformá-lo num espaço interessante para a comunidade eu tenho vontade de soltar fogos de artifício.

Recentemente, o Doors Open, o evento anual que abre as portas de diversos edifícios para visitação pública, deu especial destaque para prédios que foram reciclados e ganharam um novo uso. Esta é uma tendência mundial que felizmente Toronto está abraçando, ainda que timidamente. São construções de todo tipo, antigas fábricas, depósitos, sedes de empresas que nem existem mais, que agora abrigam cafés, lojas, centros comunitários, galerias de arte, restaurantes. Além de reviver o charme arquitetônico de outros tempos, elas têm história e a tal personalidade inexistente num Walmart ou McDonald’s.

Uma das boas novidades desta safra de prédios revitalizados é o Dineen Building, que fica no 140 da Yonge Street, esquina com a Temperance Street. Construído em 1897 para abrigar a Dineen Hat and Fur Company, uma empresa que vendia chapéus e roupas de pele, ele passou a fazer parte do patrimônio histórico da cidade em 1973, mas ficou abandonado até o ano passado quando ganhou uma reforma completa. A beleza do prédio foi restaurada, com suas colunas de ferro e frisos elegantes. Um lindo café agora funciona no térreo, com mesinhas na calçada e tudo, um luxo certamente bem-vindo numa região de bancos e escritórios.

O Native Child and Family Services of Toronto (30 College Street), é um caso diferente. Um edifício comercial dos anos 80, sem qualquer atrativo e também abandonado, foi transformado há três anos num centro de apoio a crianças e famílias aborígenes. A fachada moderna revela pouco do espetacular interior inspirado na natureza e nas cores e tradições da cultura indígena. Há até uma reinterpretação de uma longhouse, uma habitação coletiva, semelhante às ocas dos índios brasileiros. Está logo depois do hall de entrada e é usada pelos representantes da comunidade para cerimônias e reuniões. O melhor fica no telhado, onde foi criada uma área para cultos ao pé do fogo, uma estrutura em forma de concha onde são feitos rituais de cura e um jardim com ervas medicinais. Tudo isso pode ser visitado pelo público, basta ir até lá e pedir permissão.

E o que fazer com uma antiga garagem de streetcars com quase 5.000 metros quadrados num dos bairros mais valorizados de Toronto (onde uma casa pode custar até $2 milhões)? Se fosse no Brasil, a resposta seria fácil: vamos demolir e construir um shopping center ou um prédio de apartamentos de luxo. E muito provavelmente tentaram fazer algo semelhante aqui também. Felizmente a história teve um final feliz. A garagem em questão ficava no 601 da Christie Street e hoje tem o nome de “Artscape Wychwood Barns”, uma mistura de centro comunitário, horta urbana, parque, local de eventos e ainda moradia e estúdio para artistas e suas famílias. No final de semana, o lugar ferve com um mercado de produtos artesanais e orgânicos, espetáculos musicais e exposições de arte. Tem playground para as crianças e uma área só para passear com os bichos de estimação. A atmosfera é meio “hippie” e absolutamente deliciosa. O projeto é da Artscape, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é “abrir espaço para a criatividade e transformar comunidades.” Missão 100% comprida.

Já que estamos falando de lugar com personalidade e revitalização de espaços não dá para deixar de mencionar o Distillery Historic District que está completando 10 anos como uma das principais atrações turísticas de Toronto. A destilaria começou a funcionar em 1837. Quase 40 anos depois, chegou a ser considerada a maior do mundo, exportando whisky e outras bebidas alcóolicas para vários países inclusive o Brasil e a Argentina. A Primeira Guerra Mundial e o breve período em que o Canadá adotou a Lei Seca quase acabaram com o negócio. Mas ele se manteve até 1990, mesmo sem a glória do passado. Depois do fechamento, durante uma década os 47 prédios da antiga destilaria, considerados um tesouro da arquitetura industrial vitoriana, foram usados como cenário de vários filmes de Holywood até que em 2003 foram transformados num centro comercial e cultural.

Hoje a distilaria é um lugar onde se pode passear a pé, visitar ótimas galerias de arte, comer numa fábrica de chocolate, tomar um bom café, comprar produtos únicos e participar de atividades, como o mercado de Natal no inverno ou, no verão, presenciar um yarn bombing, uma espécie de guerrilia colorida criada por fãs de crochê e tricô que decoram espaços públicos com trabalhos feitos nessas duas técnicas. São lugares assim, que têm uma história para contar, onde há criatividade e oportunidade de convívio que dão alma e identidade a uma cidade. Quando falaram em construir um Walmart no Kensington Market, um dos pontos mais pitorescos de Toronto, senti um frio na espinha. Se isso acontecer, acho que minha mãe nunca vai conseguir se orientar nessa cidade.

Patricia Almeida nasceu em Curitiba e começou a carreira de jornalista na TV Paraense, emissora filiada à Rede Globo, na capital paranense. Depois mudou-se para São Paulo, onde foi coordenadora de produção do Jornal Hoje, editora-executiva do SPTV e editora de texto do programa “Mais Você”, também na Rede Globo. Foi ainda produtora de documentários da Rede SescSenac. Veio para o Canadá em 2003 e durante 8 anos foi produtora de programas em língua portuguesa da OMNI TV. Além de colaborar escrevendo para o OiCanadá, é também responsável por manter o Instagram do blog atualizado com belas fotos.

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