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Novos pais preferem criar filhos nos subúrbios

Jovens imigrantes não precisam pensar duas vezes ao escolher Toronto como a cidade onde irão desembarcar e reconstruir suas vidas. Mas e para casais com filhos, seria Toronto uma boa escolha em longo prazo? Entenda por que para cada pessoa que chega a Toronto, mais de três saem.

Toronto possui a reputação de ser uma cidade bem habitável, mas essa reputação não reflete muito bem a realidade. A ilusão nasceu em 1971, ano em que a cidade eliminou a proposta de construção da Spadina Expressway, uma super auto-estrada no sentido norte-sul que facilitaria a viagem de subúrbios ao centro de Toronto. Essa vitória embutiu nos torontonianos um conjunto de ideias de como a vida na cidade deveria ser.

Os defensores radicais da vida na cidade consideram melhor viver: com pouco espaço, em altos prédios, sem carro, a pé, no transporte público, no tráfego, em parques. Esses são seus valores, e para eles, a vida no subúrbio é praticamente uma forma urbana inferior.

Mas, ainda assim, os subúrbios continuam crescendo. Os subúrbios da era Spadina Expressway: Etobicoke, North York e Scarborough são agora considerados inner suburbs – já absorvidos pela grande cidade –, e os outer suburbs são os mais distantes, como Cobourg, Newmarket, Barrie, Burlington e qualquer outra cidade onde as pessoas possam decidir morar e ainda assim se sustentarem com dinheiro vindo da economia da grande cidade.

Casas maiores e enormes quintais são apenas duas das razões pelas quais torontonianos estão deixando a cidade. Eles também sentem que morar em Toronto esta ficando cada vez menos viável. A evidência disso está no fechamento de escolas, na batalha diária para chegar ao trabalho, nas taxas altas e em crescimento para matricular filhos em um daycare e atividades comunitárias, além de longas filas de espera. A constante discussão da prefeitura sobre quais os próximos serviços a serem cortados, como remoção de neve, manutenção de parques e reciclagem, reforça a impressão de que a qualidade de vida na cidade está caminhando para pior.

No ano passado, a Statistics Canada publicou um estudo mostrando que para cada pessoa que se muda para Toronto, 3.5 pessoas saem da grande cidade. Se não fosse pela constante chegada de pessoas de outras regiões, províncias e países – que é na verdade um influxo de pessoas que não sabem onde estão “amarrando o seu bode” – downtown estaria esvaziando rapidamente.

De acordo com a StatsCan, pessoas com idade entre 25 e 44 anos são as mais passíveis de se mudarem, e entre 2001 e 2006, aproximadamente 95,700 delas realmente saíram da cidade. O perfil de quem escolhe o subúrbio para morar inclui uma renda entre C$70 e C$100 mil anuais (valor líquido), diploma universitário e filhos. O que faz muito sentido. Famílias com esses salários são ricas se não possuem filhos, mas quando a família começa a crescer, viram rapidamente famílias de classe média.

Os jovens que mais se enquadram no estilo de vida torontoniano são os artistas e professores de universidades. Toronto esta realmente perdendo muitos dos jovens profissionais de renda média que são pais.

No entanto, para algumas pessoas, sair da cidade não é tão simples. É preciso combater o pensamento de que ir morar no subúrbio é sinal de derrota. O importante é encarar a mudança como uma desistência feliz, e balançar a bandeira branca para o perpétuo gerenciamento de stress, muito conhecido pelos moradores de grandes cidades, e hipotecas que parecem nunca acabar.

Quando as pessoas começam a flertar com a ideia de sair da cidade, geralmente são motivadas pela matemática da hipoteca. “O quão maior seria nossa casa fora da cidade, pagando o que atualmente estamos pagando por esta casa na cidade?” A resposta é fácil: muito maior.

Por exemplo, uma casa de 121 m² (1300 sq ft) em Riverdale vale hoje em torno de C$663 mil, tendo valorizado aproximadamente C$223 mil nos últimos quatro anos. Em Peterborough é possível comprar uma casa com o dobro do tamanho e o triplo do quintal por C$510 mil. Mudar para o subúrbio é garantia de casa maior e hipoteca mais baixa, além de uma entrada de garagem maior do que o antigo quintal. Mas, em compensação, os imóveis não valorizam muito com o tempo e, se um dia você precisar vender sua casa, receberá praticamente a mesma quantia que pagou ou até menos se não fizer boa manutenção da casa. Por isso muita gente afirma que ir morar no subúrbio é um caminho sem volta. Da mesma forma que sua vida recebe um upgrade ao sair da cidade, o oposto aconteceria se você decidisse voltar, o que a maioria das pessoas não está disposta a enfrentar.

A doutrina downtown prega que densidade demográfica é algo bom, ter muitos vizinhos é legal, espaço é para ser compartilhado e que tudo bem pagar estacionamento extra para deixar o carro dormir na rua há três quarteirões da sua casa durante um inverno com dias que chegam a fazer -30º. Parece que a doutrina é realmente verdadeira, afinal os preços dos imóveis em Toronto estão cada vez mais exorbitantes.

O alto preço dos imóveis não está relacionado apenas à compra de espaço, mas também à compra de tempo. Proximidade significa viagens mais curtas, o que significa mais tempo para fazer outras coisas. Mas Toronto não é uma boa cidade para dirigir, e o tempo perdido por motoristas no tráfego da cidade é um dos piores da América do Norte.

Portanto, muitas vezes morar distante do centro da cidade não significa necessariamente passar mais tempo no trânsito, e mesmo que isso aconteça, a viagem possui um nível de stress muito menor, incomparável ao de dirigir dentro da cidade. Morar no subúrbio e trabalhar na cidade significa dirigir quase o mesmo tempo para chegar ao trabalho, porém percorrendo uma distância muito maior, aproveitando uma paisagem agradável, o que torna a viagem bem mais tolerável.

Outra opção para quem decide morar afastado de Toronto é viajar pelo Via Rail, o que é bem diferente de encarar o TTC (transporte público de Toronto) lotado diariamente. Viajar de trem é uma outra experiência, e apesar de levar mais tempo, as pessoas passam a se conhecer com o tempo, fazem novos amigos, conversam tomando um vinho, e até participam de festinhas no próprio trem. Essa vivência nem se compara a pegar um streetcar engarrafado (que eventualmente ainda pode mudar de rota), enquanto cada um permanece dentro da sua própria bolha e ninguém se olha direito. Viajar de trem permite que você chegue relaxado em casa, e se os seus horários de trabalho forem flexíveis, poderá negociar alguns dias produzindo de casa.

Por outro lado, existem coisas que a grande cidade pode oferecer que nenhum subúrbio consegue. Umas das principais é a variedade de restaurantes. Mesmo que você passeie pelas pequenas cidades ao redor da sua, chega uma hora em que você já experimentou todas as opções.

Mas a principal oferta da grande cidade parece ser mesmo a anonimidade. Fora de Toronto todo mundo sabe quem você é, o que anda fazendo e planejando, e nunca acham que você está muito ocupado para recebê-los. Seus vizinhos irão bater na sua porta a qualquer momento, e esperam ser convidados para entrar. Faz parte da cultura.

Na grande cidade, todo mundo vive colado. Como resultado, existe uma convenção social em respeito à privacidade das pessoas: não encare, não preste atenção na conversa alheia, não assuma que outras pessoas estão tomando conta de seus filhos.

Em uma pequena cidade com quintais enormes, você já possui toda privacidade de que precisa, então as convenções mudam – você precisa dar alô a todos, perguntar sobre suas famílias e amigos, e compartilhar as novidades prontamente.

Viver em Toronto permite que você viva experiências únicas, e provavelmente é o melhor local para encontrar um parceiro, casar e ter filhos, e ser promovido. Mas quando você já conquistou tudo isso, suas necessidades mudam, e Toronto não mais poderá lhe atender. Com o tempo, você provavelmente irá desejar mais espaço pessoal, baixo custo de vida, e uma vida em comunidade ao invés da privacidade. A intensidade e anonimidade da grande cidade provavelmente passarão a dificultar a sua vida mais do que ajudá-la.

Este post foi escrito com base na matéria Exodus to the burbs, da edição de setembro/2011 da revista Toronto Life.

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Fernanda Thiesen

Fernanda é carioca, publicitária, co-fundadora e editora-chefe do OiCanadá, e web designer no SiteToaster.co. Imigrou para o Canadá no final de 2006 e se tornou cidadã canadense em 2011.

6 Comentários

6 Comments

  1. Fabi

    07/fev/2012 at 16:00

    concordo com a Juliana morar em lugares que praticamente nao se ve ninguem depois das 7 da noite e realmente mto dificil, inverno se torna mais longo mais triste, isso e minha opiniao eu particularmente gosto de ver gente movimento, lojas etc.. e morar longe de tudo isso num lugar frio e cinzento e realmente mto dificil …

  2. Marcos

    13/nov/2011 at 11:17

    Excelent article! After that, it’s up to us to decide which option choose…

  3. Juliana

    21/out/2011 at 21:34

    Acabei achando engracado dizer que o inverno parece nao ter fim nos suburbios, quando ele parece nao ter fim de qualquer maneira e em qualquer lugar aqui no Canada!!!!!! Eu quis dizer, na minha experiencia pessoal, que o inverno afastado da cidade parece muito, muito mais longo…

  4. Juliana

    21/out/2011 at 21:29

    Oi Fernanda! Adoreio seu texto! Voce explicou super bem o lado positivo de sair da cidade para o suburbio! Eu vivi por quatro anos em Richmond Hill… Agora voltamos para o centro de Toronto, na Bathurst com Lakeshore. Eu acredito que cada pessoa tem motivos diferentes pra querer sair de Toronto…Mas na minha experiencia, principalmente no inverno, e’ muito, mas muito dificil de conviver com o isolamento de certos suburbios…A falta de gente, de sol, de agito, por esses motivos meu marido e eu decidimos vender nossa casa e compramos um apartamento aqui. Principalmente pra quem e’ brasileiro, fica dificil de se adaptar qdo vc vive num bairro onde nao se ve ninguem depois das 7 da noite!!! E’ uma escolha pessoal eu sei… mas vale a pena pensar antes de sair da cidade! A nossa decisao de voltar valeu a pena, temos agora um bebe de um ano e nao nos arrependemos de trocar o espaco pela vida mais alegre da cidade. Gosto pessoal… Valeu pelas dicas Fernanda, espero que a minha opiniao tambem ajude alguem em duvida… Se voce nao gosta de marasmo, tedio, muito frio e um inverno que parece nao ter fim :) nao mude pros suburbios!!!!!!!

    • Luciana

      14/jul/2012 at 18:03

      Oi Juliana, me identifiquei muito com seus pensamentos. Estou morando em Vancouver no momento pois viemos ( eu, meu marido e minha filha de 5 anos agora) em 2010 para meu marido se graduar para trabalhar na Indústria de Games. Essa luta está finalizando agora em meio de agosto ( finalmente!), não pude ficar aqui o tempo todo com minha filha pois a escola pra ela era cara e eu não podia trabalhar. Com o diploma em mãos meu marido tem direito a 1 ano de work permit e eu também.
      Sinceramente, estamos um pouco cansados de viver aqui, achamos as pessoas muito “dead” , se é q vc me entende…Andei lendo tudo aqui neste site, e nós estávamos querendo mudar pra Toronto, mas me parece que a vida aí tb é muito cara , além de eu ter ficado sabendo q em Toronto só são aceitas crianças filhas de canadenses, permanent residents ou refugees nas escolas públicas!! Para quem está com work permit não tem vaga em escola pública…Fiquei bem chateada com isso pois não gostaríamos de morar em lugares parados novamente..Tenho uma prima q vai morar em Mississauga, e lá eles aceitam crianças filhas de pais com work permit. O que vc me diz de Mississauga , vc conhece? Obrigada pela ajuda que puder me dar!!

    • Gabriele

      30/abr/2013 at 17:06

      Juliana,por favor,me passe seu contato para a gente conversar?

      Preciso mesmo de dicas,pretendo me mudar com meu futuro marido(depois de casar) para Toronto,me ajude.

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