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Cultura

Não tem tradução

Só vivendo em outra língua a gente percebe o que a linguagem é. Viver em qualquer outra língua de um jeito funcional, saber ler, escrever, falar não é o mesmo que ser. Nós, brasileiros, só somos em português. Por mais que não percebamos isso, por mais que deixemos nossa língua ser invadida por estrangeirismos de toda ordem, por mais que não a valorizemos (pela síndrome de vira-latas que compramos à prestação). O que significa nosso idioma, nossos signos, nosso jeito de comunicar o que somos?

Se imagine vivendo no Japão, só entre japoneses, para todo o sempre. Imagine que ninguém mais no mundo fala português. Só tu. Digamos que tu aprenda mais três línguas culturalmente distantes da tua. Vais viver, conversar, te virar bem durante toda existência. Mas sem jamais encontrar um brasileiro, se sentirá só, bem no final.

Terás o intelecto e a emoção separados pela fronteira do idioma. Porque a língua é o reflexo de um povo, o único modo que ele tem de transmitir sua cultura, seu saber. Dá pra cantar um samba em inglês, em alemão até… o problema não está nas palavras, mas na língua, na origem, na vivência compartilhada do mesmo significado de cada expressão. “Nem toda riqueza do mundo vale o terreiro onde faço meu samba com tranquilidade.” Terreiro? Ah, dá pra tentar de todo jeito explicar isso, mas os gringos entenderiam que atmosfera um terreiro tem? Do que exatamente o poeta fala. Pra terminar a conversa, sabe o que acontece? A gente reduz, adequa e eles se dão por satisfeitos, como nós faríamos se não tivéssemos a tal referência. E nessas alturas o troço já se perdeu. E a gente também cansou de dar gabarito de tudo que dizemos. Os ditados, os versos populares, as gírias surgem de histórias. Até os preconceitos e piadas são fruto do jeito coletivo de pensar.

Vivendo numa cidade como Toronto, onde a maioria nasceu em outro país, a questão do sentimento humano de nostalgia está sempre em pauta. O porquê das pessoas se sentirem mais felizes quando tem alguém pra falar a sua própria língua, mais que isso, para estabelecer o mesmo código de linguagem, ocupa páginas de jornal. Não vamos nem entrar na questão do aniquilamento de milhões de línguas ao redor do mundo em favor da igualização que nos apamonha, nos força a ser quem não somos. Mas acabo de lembrar da imagem de uma senhorinha de 90 anos, última descendente de sua tribo a falar sua língua. Quando perguntada sobre o que doía mais no envelhecimento, ela respondeu que era a solidão. A repórter demorou a entender que não se tratava de pessoas na volta dela. Mas pessoas com as quais ela pudesse se comunicar de verdade. Não é preciso penetrar mais fundo no mundo da solidão para empatizar com sua dor. Não se expressar como se gostaria é não ser.

Mas eu sou suspeita pra falar tudo isso. Sou uma apaixonada pela palavra. Leio-a de um jeito vertical, mergulho nela. Fico emocionada quando leio uma frase bem escrita, alguma coisa que transcende a palavra, mas necessita dela para ganhar forma e sensação. O que acontece fora do país não é a dificuldade de se expressar, mas de ser compreendido como se gostaria de ser, no detalhe, na malícia, na sutileza. Mas não… não se pode ter tudo. A gente ganha uma língua, um mundo novo se abre, descobrimos outras origens, sanamos curiosidades, voltamos a ser crianças atentas apreendendo o universo mutante. Mas ser, ser mesmo, só em português e em português brasileiro. Pois como diria o Noel Rosa na letra Não tem tradução, ‘amor lá no morro é amor pra chuchu, as rimas do samba não são I love you’. E a essência de uma língua é intraduzível, subjetiva e por isso precisa de sujeitos. E os sujeitos, somos ‘nozes’.

“A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas.”

João Guimarães Rosa

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Eliana Rigol

Eliana Rigol é uma inquieta faceira nascida no sul do mundo. É autora do livro "Moscas no Labirinto" e cotidianamente deixa as ideias fluírem num blog que mantém há muitos anos. Advogada por formação, adotou a fotografia e a escrita como formas de tornar a vida mais leve. Migrou para Toronto em 2010, se tornou mãe da Luna, já rodou o mundo e voltou. Acredita no vento, no coração e no movimento.

3 Comentários

3 Comments

  1. Eliana

    18/nov/2011 at 05:45

    Bruno e Marcelo, obrigada pelos comentários.

    Marcelo, acho que tu tenhas captado exatamente a nunce do texto. Não me refiro unicamente à questão da nacionalidade, me refiro à origem, história de vida, referências de sons, imagens, linguagem, sabores que todos nós guardamos de um passado que independentemente de três nacionalidades, possamos ter. Um menino que fale três línguas e tenha passado por 4 países, certamente passou cada fase de sua vida em algum deles. Não podemos ser divididos no tempo e no espaço. Nossa vida é única e se passa num só tempo. Ele sentiria muita solidão num mundo onde não se falassem nenhuma das três línguas que ele domina, ainda que ele não deva se indentificar com todas elas da mesma forma. No exemplo da senhorinha que ficou sem ter com quem conversar não se tratou dela não saber falar a língua dos que a rodeavam e sim de não ter com quem conversar na sua língua. Ela sabia aquela outra língua, talvez tenha vivido muitos anos nela, mas não se indentificava, pois suas lembranças estavam contidas em outra linguagem. Enfim, todos nós somos podemos nos habituar a viver em qualquer país, cultura ou linguagem, mas continuo pensando que a solidão viria quando todos ao teu redor não entendessem tuas referências. Ah, a referência ao português brasileiro foi só para dizer que em Portugal não seria o mesmo…=)

  2. Marcelo Souza

    17/nov/2011 at 12:58

    Não poderia dizer que o Bruno está errado, mas acho que parte do que ele disse não é contrariar o que a Eliana disse: quando ele cita o exemplo do garoto, acho que poderíamos dizer que a nacionalidade deste garoto é aquele mix de três idiomas e quatro países… ou seja, ele só “seria” ele mesmo quando conversando/vivendo naquele ambiente. O garoto “deixaria de ser” se tivesse que se relocar para uma outra cultura totalmente diferente de uma das quais faz parte de sua multi-nacionalidade.

  3. Bruno

    17/nov/2011 at 02:41

    “Mas ser, ser mesmo, só em português e em português brasileiro.” Concordo, Eliana… quase plenamente! Sim, é verdade que só se pode ser [brasileiro] em português brasileiro. Mas podemos igualar o ser, a realidade-humana, a uma nacionalidade? Devemos?

    O que seria do garoto oriundo de uma família cosmopolita que transcende as divisões geopolíticas de nossa sociedade por ter crescido com três idiomas e três nacionalidades em quatro países, e que se diz humano e cidadão do mundo antes de se dizer brasileiro, espanhol ou canadense?

    Se “ser” realmente é “ser [insira nacionalidade aqui]”, como sugeriu, a resposta para essa pergunta é trágica e absoluta: o garoto será para sempre alienado em um mundo absurdo, como Meursault ou Gregor Samsa. Por outro lado, se somos o que pensamos – e somos! – e os limites do pensamento são os limites da linguagem, o garoto será muito mais do que um idioma, e uma nacionalidade. E ele poderá ser em qualquer um de seus idiomas. Apesar de que ele não poderá ser tudo que ele é todo o tempo, claro…

    Mas ninguém pode!

    O modo existencial de compreensão do ser é muito mais fundamental do que o linguístico. Por isso, corremos o risco de “não ser” mesmo na presença de conterrâneos, mesmo falando a mesma língua. É por isso também que podemos ser – e muito, e mais! – na presença de “estrangeiros”. Pois, no fim, estamos mesmo é na presença de humanos…

    Resumindo: sim, um idioma precisa de sujeitos. Mas estes podem ser ocultos!

    Valeu a reflexão, Eliana ;]

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